A tradução simultânea de eventos científicos e técnicos

Eventos técnicos e científicosHoje resolvi falar um pouco sobre a tradução simultânea dos diferentes tipos de eventos em que nós, intérpretes simultâneos, trabalhamos e suas características do ponto de vista do intérprete, mostrando um pouco dos aspectos básicos e das dificuldades de cada evento.

Acho que, grosso modo, podemos dividi-los em duas grandes áreas: os eventos científicos ou técnicos e os eventos de negócios, notando também que certos tipos, como o painel, podem ser situações dentro de um evento de outra natureza.

Neste primeiro post abordaremos os eventos científicos ou técnicos, que rendem já muito assunto, como vocês verão.

Eventos científicos e técnicos

Há uma enorme variedade de formatos de eventos científicos: congresso, seminário, palestra ou ciclo de palestras, simpósio, painel, fórum, jornada etc.  Quando de porte menor podem ser realizados em instituições acadêmicas, no campus de uma universidade ou em um hotel. Mas no caso dos congressos, pode haver milhares de participantes, o que leva o organizador a escolher espaços maiores.  Aqui em São Paulo três locais muito utilizados para sediar congressos são o Parque de Exposições do Anhembi, o Transamérica Expo Center,  Expo Center Norte e Centro de Exposições Imigrantes.

Preparação do intérprete

Pessoalmente gosto muito de fazer a tradução simultânea de eventos científicos e técnicos, em que pesem as dificuldades terminológicas inerentes a esse tipo de evento. Como todo intérprete profissional, sempre me preparo com todo o empenho, estudando glossários pessoais e fazendo pesquisas na Internet antes do evento, especialmente quando vou trabalhar em um congresso de medicina. Mas o esforço compensa, e muito. Os eventos científicos são um panorama do que há de mais avançado na área médica ou técnica e neles sempre aprendo coisas novas,  o que é muito prazeroso para mim.

Estilo da oratória

Por trás de toda fala sempre há uma motivação: persuadir o ouvinte, conquistá-lo para uma causa. No caso dos eventos científicos isso é feito mais pela apresentação de dados de pesquisas e menos pela oratória. O que estou querendo dizer aqui é que nos eventos técnicos e científicos o palestrante costuma ser mais direto ao ponto, mais informativo e menos rebuscado. Como clareza na expressão é meio caminho andando para o intérprete, este é um aspecto que aprecio muito nos eventos científicos.

Falta de material de preparação: uma constante

Nos eventos científicos e técnicos, outro obstáculo para o intérprete costuma ser a falta de material para preparação. É muito, muito raro a equipe de interpretação receber qualquer coisa dos palestrantes para fins de preparação. Os organizadores de eventos, que deveriam nos passar as apresentações com antecedência,  não consideram toda a dificuldade de apreender em 24 horas ou instantaneamente a terminologia e base teórica que o médico ou engenheiro passou 10 anos estudando. Sei que nem sempre a culpa recai toda sobre o contratante dos intérpretes. Muitos palestrantes deixam o Powerpoint para a última hora ou tem medo de mandar suas apresentações com antecedência devido a questões de confidencialidade. Acho que pensam assim porque desconhecem que uma das primeiras responsabilidades de um intérprete de conferências é justamente o sigilo.

Equipes de intepretação para muitas salas e canais de tradução simultânea

Outra característica dos congressos científicos é a grande quantidade de salas e sessões. Receber a agenda (ou programa, como se dizia antigamente em português) com a escalação das duplas de intérpretes é importantíssimo para evitar correrias, pois os intérpretes costumam se deslocar de uma sala para a outra e às vezes o intervalo entre as sessões é pequeno.  Quando o congresso tem mais de 6 ou 7 salas simultâneas é muito comum termos o intérprete coordenador em standby para fazer o meio de campo com o organizador do evento e cobrir possíveis emergências.

As muitas salas simultâneas podem vir acompanhadas de muitos canais de tradução simultânea (por exemplo, uma sala com quatro línguas e três cabines, inglês, francês e espanhol, sendo a quarta o português). Isso pode aumentar significativamente os custos e o tamanho da equipe de intérpretes. As línguas mais comumente usadas nos congressos em São Paulo são, por ordem de importância o inglês, espanhol, francês, alemão e italiano, japonês e coreano.  Para os intérpretes, os grandes eventos de medicina e outras áreas técnicas e científicas são sempre uma oportunidade divertida de rever colegas, se bem que raramente temos ânimo para fazer happy hour depois do evento, tamanho o cansaço.

Uma profusão de sotaques

Por atraírem participantes de diversos países, os sotaques exóticos podem ser uma constante nos eventos científicos. Nas plateias brasileiras, vemos sempre que há uma parte dos congressistas que fala inglês e está habituada a ouvir o sotaque americano e inglês sem necessidade tradução simultânea. Contudo, o inglês falado como língua estrangeira por europeus de outras nacionalidades, australianos, africanos  e principalmente asiáticos traz problemas ao entendimento do público brasileiro. Já presenciei corridas aos fones de tradução simultânea quando entra um palestrante com sotaque difícil no pódio. E os congressistas estão certos. Como já ouvi um deles dizer: “Para que me matar para entender o sotaque quando posso concentrar a atenção no que está sendo dito pelo tradutor simultâneo?”

Terminologia dos eventos científicos

Gostaria de finalizar o post com um último comentário sobre a terminologia, que talvez seja o ponto mais  sensível para os intérpretes que trabalham em congressos, fóruns, simpósios e outros encontros científicos.

Parece contrasenso mas é fato: quanto mais focada e específica a temática do evento, mais fácil será para o intérprete assimilar a terminologia relevante. Por exemplo, num evento em que se fala sobre iogurtes probióticos o tempo todo, os termos se repetem com mais frequência, e por isso a dificuldade para o intérprete pode ser menor do que num evento sobre biotecnologia, em que se discutem n tipos de tecnologia e aplicações. Há sempre um período de ajuste inicial, uma curva de aprendizado dentro da cabine quando nos deparamos com um assunto totalmente novo, mas terminologia se aprende. E cedo mais do que tarde no caso dos intérpretes.

 

 

uma resposta para “A tradução simultânea de eventos científicos e técnicos”

  1. November 22nd, 2011 at 11:42

    Dicas para tradução em eventos, vídeos sobre legado de eventos esportivos e mais. Dica Evento. diz:

    [...] bacanas referentes à atuação do intérprete e tradutor em eventos, no site VoiceLink. Clique aqui e confira.Refletindo Sobre Legados de Eventos EsportivosVídeo importante para refletirmos sobre o bom e o [...]

Deixe seu comentário