Profissão Intérprete: Entrevista com Fabiene Rocha

Escrito por: ME

Profissão Intérprete de Conferências

Hoje publicamos mais uma entrevista da série Profissão Intérprete, iniciada com o colóquio com a intérprete-coordenadora da Voicelink Andréa Bianchi. Respondendo às perguntas de Andréa Bianchi e dando um panorama geral da carreira de intérprete de conferências, temos Fabiene Rocha. Profissional experiente, com mais de 20 anos de carreira em cabines do Brasil e do exterior, especializada em interpretação de finanças, ela é uma das sócias fundadoras da Voicelink Tradução Simultânea.

Pura concentração

Fabiene, como foi o momento em que você decidiu ser intérprete de conferências?

Não sei se decidi ser intérprete, como algo de caso pensado. Tenho certeza que decidi parar de dar aulas de inglês nos idos de 1987 e buscar novos desafios.  Leia mais…

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O intérprete simultâneo e o sentido da visão

Escrito por: ME

Intérpretes devem ser ouvidos mas não vistos?

Conhecem o provérbio inglês “Children should be seen and not heard”?

Infelizmente há organizadores de eventos que acreditam que esta máxima se aplica aos intérpretes de conferências, só que ao contrário. Devemos ser ouvidos mas não vistos.

Eu sei que não fazem por mal. Atrás de todo organizador de eventos atarantado tem um cliente à beira da histeria, que pensa que a estética é tudo e que essa caixa preta com duas pessoinhas dentro, simplesmente não faz nada pela beleza da sala.

A foto que apresento abaixo ilustra o desvelo de certos organizadores em ocultar a cabine de tradução simultânea. Da nossa janela envidraçada enxergávamos esses lambris de madeira de demolição e nada mais.

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Minha colega disse que até tentou se esforçar para ver pelas frestas o que acontecia na sala. Eu nem tentei, confesso. Ativei o modo “intérprete em vôo cego” e fui embora.

Intérpretes e visão: uma relação curiosa

As práticas recomendadas não deixam dúvida: ao posicionar a cabine de tradução simultânea, o organizador deve sempre zelar para que o intérprete tenha uma visão desobstruída do palco. O leigo pode se perguntar por quê isso tem tanta importância, considerando que os principais sentidos usados pelo intérprete são a audição e a fala.

Explico então que os olhos dos intérpretes tem uma função primordial: acompanhar o que acontece na sala, a fisionomia dos palestrantes, as expressões da plateia, o entra-e-sai na sala, sem falar nos slides que estão na tela, que nem sempre são disponibilizados para os intérpretes com a devida antecedência.

Sem uma linha de visão, ainda que  torta, não consigo desenvolver o que chamo de “conference room awareness”. Fico à deriva, boiando num caldo de palavras, sem saber muito bem para onde a corrente vai me levar. Falta-me o rapport com a plateia e  o elo visual com uma figura de palestrante.

Trabalhar nessas condições não é impossível. Mas agradável também não é.

Interpretando às cegas: um exemplo extremo

Pra mim, a interpretação remota de teleconferências de resultados financeiros é o exemplo extremo, a situação em que a falta de visão dos palestrantes e de um contexto geral de sala mais atormenta o intérprete. São vários os desafios desse tipo de trabalho: da terminologia financeira às condições de áudio e a tsunami de números batendo, um após o outro, incansavelmente; porém nenhum obstáculo me parece pior do que a ausência de uma figura humana na minha frente.

Luz, sombra e seu efeito sobre a concentração do intérprete

Se a falta de referência visual atrapalha, devo dizer que o meu cérebro tem curiosa intolerância a ambientes fortemente iluminados. Intolerância é um modo suave de falar que me desconcentro e ele praticamente enguiça. Não sei a partir de quantos fótons o desempenho cai, mas fico ansiosa para voltar para a penumbra logo que a luz dos refletores começa a vazar para dentro da cabine de tradução simultânea.

Luz do dia e lâmpadas fluorescentes são as piores para minha concentração. Mais de uma vez, em salas de reuniões, corri para discretamente fechar as persianas e tornar o ambiente mais propício à concentração.

Ainda mais curiosa é a intolerância visual que surge lá pela sexta hora de trabalho em cabine ou 12o palestrante, o que vier primeiro. Mesmo na sala mais bem iluminada do mundo, com o cérebro exausto, tenho a sensação de que a informação visual da sala começa a me atrapalhar.  É a fase do information overload. Tudo e qualquer coisa, até o formato da cadeira prejudica o esforço de me manter focada na mensagem, a minha e a do palestrante.

Nessa hora, em vez de fechar os olhos, como muitos intérpretes fazem, desloco os olhos para a bancada da central de interpretação, e nisso encontro repouso para a mente e novo fôlego para continuar.

Mas que fique claro: esses momentos são breves, e logo volto a apontar os olhos para lá onde minha atenção deve estar: na mesa do painel, no pódio, onde quer que alguém esteja produzindo uma mensagem que precisa de tradução.

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Feng Guifen e seus ‘intérpretes burros e sem noção’

Escrito por: ME

Por um acaso, topei hoje na Lapham’s Quarterly com um interessante texto chinês, que trata do desejo de apropriação do saber ocidental, numa tentativa de deter o avanço dos ingleses e acaba falando de tradução e interpretação.

Feng Guifen

O autor é Feng Guifen, um dos primeiros pensadores reformistas da China do século 19. O texto em questão foi publicado depois que a influência ocidental se enraizou no país, com o fim da 2a. Guerra do Ópio, em 1860. Sobre as tradições chinesas, o autor afirma: “Quando os métodos são falhos, devemos rejeitá-los embora sua origem seja antiga; quando os métodos são bons, devemos nos aproveitar deles, mesmo se forem os usados pelos bárbaros.”

Tradução, a ferramenta para superar os bárbaros

O trecho começa com uma vênia do autor à superioridade dos livros científicos ocidentais, que conteriam informações  abrangentes e precisas; algo fora do alcance dos intelectuais e governantes chineses de então.

Para resolver o problema, ele sugere:

If we wish to use Western knowledge, we should establish official translation bureaus in Guangzhou and Shanghai. Brilliant students not over fifteen years of age should be selected from those areas to live and study in these schools on double allowances. Westerners should be appointed to teach them the spoken and written languages of the various nations, and famous Chinese teachers should be engaged to teach them classics, history, and other subjects. At the same time they should learn mathematics. (Note: all Western knowledge is derived from mathematics. If we wish to adopt Western knowledge, it is but natural that we should learn mathematics.) China has many brilliant people. There must be some who can learn from the barbarians and surpass them.

Leio este trecho e sinto vontade de dar uns tapinhas nas costas do perspicaz Feng Guifen, que não somente reconhece o valor estratégico de um tradutor hábil, como faz intuir que o trabalho requer grande inteligência, treinamento formal de primeira linha, com professores nativos, de preferência. Leia mais…

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Interpretação de cochicho

Escrito por: ME

Uma imagem vale mil palavras.

Compartilho com vocês esta foto magistral de Peter Marlow, da agência Magnum, tirada durante a coletiva de imprensa de uma reunião de Cúpula em 1985, em Genebra. A modalidade usada na ocasião é a interpretação ou tradução simultânea de cochicho (whispering em inglês ou chuchotage em francês).

 

Gorbachev e Ronald Reagan com seus intérpretes

Suíça, Genebra, 1985. Ronald REAGAN, presidente dos Estados Unidos e Mikhail GORBACHEV, Secretário-Geral do Partido Comunista da USSR.

Ela nos dá a perfeita dimensão da concentração dos intérpretes e da atenção com que os dois líderes seguem a mensagem.  E passa aquela tensão, que só quem já sentou lá no palco para fazer uma interpretação de cochicho para uma autoridade sabe reconhecer.

Como os dois intérpretes cochicham simultaneamente no ouvido dos presidentes, acredito que neste momento deveriam estar traduzindo uma mensagem vinda do sistema de áudio geral, possivelmente dita em outra língua. Em outros momentos devem ter recorrido à tradução consecutiva.

Curtiram a foto? Vou pesquisar o nome dos intérpretes para incluir no post, se alguém souber, deixe um comentário aqui no blog.

Mais informações: quer conhecer a curiosa história desta foto? Clique neste link para o relato de Peter Marlow.

 

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Profissão Intérprete: Entrevista com Andréa Bianchi

Escrito por: ME

Profissão Intérprete de Conferências

Você já se perguntou como é trabalhar como intérprete de conferências? Quais são os desafios iniciais e como deslanchar na carreira? Como é trabalhar quase todos os dias numa cabine de tradução simultânea? Pensando nos aspirantes à profissão, propomos a a nossos a leitores série de entrevistas Profissão Intérprete.

Nela vamos publicar uma série de entrevistas com intérpretes que conseguiram chegar lá e hoje são profissionais de renome e sucesso. Vamos começar com a nova integrante da Voicelink Tradução Simultânea, a intérprete-coordenadora Andréa Bianchi, que aborda vários tópicos interessantes nesta entrevista, das dificuldades na tradução simultânea entre espanhol e português a passeios de caça Mirage.

Vale a pena conferir!

 

ME: Bom dia Andréa,  os nossos leitores e clientes gostariam de saber um pouquinho mais sobre você, que acaba de entrar para Voicelink, como diretora do departamento de Espanhol. Posso fazer algumas perguntas?

AB: Claro, será um prazer falar da profissão, a interpretação simultânea foi uma das poucas escolhas certas que fiz na vida.

ME: Andréa, qual é a sua formação e seus idiomas de trabalho? Vc sempre quis ser intérprete de conferências ou entrou na profissão por acaso, como muitos de nós?

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Vocabulário bilíngue de Game of Thrones

Escrito por: Fabi

Como intérpretes simultâneos devemos sempre  melhorar nossas habilidades linguísticas e amplitude cultural. Este é um dever que pode também se transformar num passatempo interessante e divertido. Como? Com a ajuda de séries de TV e filmes.

A tradução simultânea, por frequentemente lidar com o inusitado, exige conhecimentos gerais abrangentes e preparação contínua. Qualquer coisa pode aparecer na fala dos palestrantes, desde táticas de guerra de Sun Tzu a citações de séries de TV, e devemos estar preparados.

Por isso, para os intérpretes simultâneos, ampliar o vocabulário e o alcance cultural garante maior tranquilidade dentro da cabine. Aprender com personagens de filmes acaba se tornando uma prática mais prazerosa e interessante quanto mais bem cuidada for a produção cinematográfica.

Logo Game of Thrones

Este é o caso da série de TV da HBO, Game of Thrones, de inegável qualidade, que num sotaque britânico impecável tenta resgatar expressões e maneirismos de uma Idade Média reiventada.

Outra particularidade da série é que trechos dos episódios são falados em dothraki, um idioma criado pelo linguista David J. Peterson, da Sociedade de Criação de Línguas e que possui ‘sonoridade única, um vocabulário de mais de 1.800 palavras e sua própria estrutura gramatical de alta complexidade’.

Numa cena memorável para nós intérpretes, vemos uma perfeita demonstração da interpretação simultânea ao pé do ouvido (whispering) feita por uma nativa dothraki para Khal Drogo, que então promete a Viserys Targaryen uma coroa de ouro. A réplica é traduzida por Daenerys, na modalidade conhecida por tradução consecutiva.  “You shall have a golden crown that men will tremble to behold”.

Faço aqui um breve resumo do enredo e divido com vocês algumas pérolas de tradução que colhi assistindo aos episódios da segunda temporada.

Personagem de Game of Thrones Robb Stark

Robb Stark, da House Stark, filho de Lord Ned Stark, último a ocupar o cargo de Mão do Rei [Hand of the King] consegue que seus súditos [bannermen] lhe jurem lealdade [pledge fealty] e apoiem sua causa [rally to his cause] contra o falso rei Joffrey Baratheon, que se diz filho do falecido Robert, o Rei usurpador [the Usurper]. Numa batalha contra o exército real, Robb Stark captura e aprisona Jamie Lannister, o regicida [king slayer] irmão e amante da rainha regente [queen regent] Cersei, viúva de Robert e mãe do cruel rei Joffrey. Robb tem esperança de trocá-lo [trade him for] por suas irmãs Sansa e Arya que, acredita, viraram prisioneiras da corte após a execução de seu pai.

Enquanto isso, em Winterfell, uma fortaleza [holdfast] a norte da capital [King’s Landing] e berço dos Stark, os lordes locais reclamam que Leia mais…

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Escola de Intérpretes de Línguas Raras

Escrito por: Andréa Bianchi

Alguém avisa para elas que intérprete não dá cano, por favor?

Alguém avisa para elas que intérprete não dá cano, por favor?

O profissionalismo dos intérpretes de São Paulo é notável. De modo geral, os serviços para eventos em São Paulo são bons, há uma grande riqueza de opções, todas as gamas de preços e alto grau de profissionalismo.

No entanto, no caso específico da interpretação simultânea, São Paulo é a capital do mundo, certamente em volume, mas também em qualidade.

Não é raro ver clientes internacionais verdadeiramente impressionados pela competência e profissionalismo dos nossos intérpretes de conferências. E, de fato, o setor não para de crescer e impulsiona a economia da cidade.

Comecei a trabalhar em cabine em 1992 e até a semana passada, nunca tinha ouvido falar em nenhum caso em que o intérprete tivesse “faltado ao trabalho”. Intérprete não falta.

Há 21 anos, quando eu comecei, minhas colegas, intérpretes profissionais da velha guarda já sabiam disso. Mas, e quando ocorrem emergências? Bem, nesse caso o intérprete de conferências não falta, ele “se faz substituir”. Leia mais…

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Felicidade é aprender uma língua nova

Escrito por: ME

Ilustração - Felicidade é aprender uma língua nova

Ilustração de Madalena Matoso.

 

Uma bonita ilustração do site Felicidário, que apresenta 365 ideias para maiores de 65, nos lembra: em qualquer idade aprender línguas é um prazer.

E para os brasileiros que ficarem intrigados com a expressão “apanhar um escaldão”, acredito que seja o equivalente continental do nosso “torrar na praia” ou “ficar vermelho como um camarão”.

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