Escola de Intérpretes de Línguas Raras

Alguém avisa para elas que intérprete não dá cano, por favor?

Alguém avisa para elas que intérprete não dá cano, por favor?

O profissionalismo dos intérpretes de São Paulo é notável. De modo geral, os serviços para eventos em São Paulo são bons, há uma grande riqueza de opções, todas as gamas de preços e alto grau de profissionalismo.

No entanto, no caso específico da interpretação simultânea, São Paulo é a capital do mundo, certamente em volume, mas também em qualidade.

Não é raro ver clientes internacionais verdadeiramente impressionados pela competência e profissionalismo dos nossos intérpretes de conferências. E, de fato, o setor não para de crescer e impulsiona a economia da cidade.

Comecei a trabalhar em cabine em 1992 e até a semana passada, nunca tinha ouvido falar em nenhum caso em que o intérprete tivesse “faltado ao trabalho”. Intérprete não falta.

Há 21 anos, quando eu comecei, minhas colegas, intérpretes profissionais da velha guarda já sabiam disso. Mas, e quando ocorrem emergências? Bem, nesse caso o intérprete de conferências não falta, ele “se faz substituir”.

Nesses 2.000 dias de trabalho, grande parte em São Paulo, nunca vi um evento com tradução simultânea ter que esperar a chegada dos intérpretes para começar. Muitas vezes, foi preciso esperar que chegassem mais participantes, outras tantas houve atrasos porque o palestrante estava preso no trânsito, mas nunca vi um evento não poder começar por atraso de intérpretes.

Quando faleceu minha avó tão querida, às duas horas de uma madrugada gelada, esperei até as 5h00, saí para o corredor e telefonei para a coordenadora do trabalho daquele dia. Decidimos rapidamente uma lista de colegas para cada uma telefonar, mas não encontramos ninguém que pudesse me substituir no evento que começava às 9h00.

Era agosto, plena alta temporada. A colega com a combinação linguística e perfil certos, que podia ajudar, só conseguiria chegar às 10h30. Então, fui para casa, tomei um banho, vesti roupa de trabalho e fui ao evento. Recebi o carinho e o abraço das colegas, fiz uma entrada de 9h30 a 10h00, tomei café, e voltei para o velório.

A qualidade da minha interpretação nessa meia hora não deve ter sido a melhor, o cliente pode ter inclusive percebido a troca de intérpretes no intervalo da manhã, mas foi uma emergência, minha avó não morrerá de novo. E a tradução simultânea do evento não parou, não atrasou, e apesar dos acontecimentos, cumpriu o seu papel na forma contratada, com o profissionalismo que nossos clientes se acostumaram a esperar dos seus intérpretes de conferências.

Nesses 20 anos, também tive um quase atraso, porque fiquei presa em um alagamento e demorei três horas para percorrer um caminho que, geralmente, leva 20 minutos. Mas eu tinha saído tão cedo que, quando cheguei à sala do evento, os participantes ainda estavam entrando. E na porta da cabine de tradução simultânea, a nossa intérprete coordenadora daquele dia, paradinha ali em pé, estoica, com um sorriso para mim: “Eu sabia que você chegaria a tempo.”

Os intérpretes de conferências em São Paulo se orgulham de seu profissionalismo rigoroso. Coloquei aqui apenas exemplos próprios, mas enquanto escrevo, vão passando pela minha cabeça inúmeros exemplos de emergências, graves ou boas, que aconteceram na vida dos nossos colegas intérpretes simultâneos, envolvendo eventos trágicos como a morte de um filho, ou um casamento inesperado e urgente, após paixão fulminante. Mas nada disso nunca foi causa de atrasos, ou, imaginem só, faltas na cabine. Por quê? Porque a interpretação simultânea em São Paulo é de um profissionalismo a toda prova, e tem uma organização invejável, que gera a nossa merecida fama.

Fiquem espertas, bonequinhas! Aqui a coisa é diferente.

Fiquem espertas, bonequinhas! Aqui a coisa é diferente.

E por que escrever isto hoje, se é um traço já tradicional, conhecido até pelos clientes? Porque, recentemente, ouvimos falar em dois casos de intérpretes de conferências, ambos de uma língua rara (LR), que, simplesmente, faltaram ao evento. Isso é inimaginável, não existe em nossa profissão!

Em um dos casos, o colega da LR que compareceu sozinho justificou a falta do seu companheiro dizendo que ele “teve um imprevisto e não pôde vir”. Isso é tão inusitado, que fico imaginando de que forma o intérprete coordenador da equipe poderia explicar ao cliente que o intérprete não iria, se o intérprete, ele mesmo, não morreu. Nada justifica faltar, muito menos sem avisar o coordenador.

No outro caso, comentado há pouco, se tratava de uma equipe grande, para um evento com cabines de várias línguas. Todos os intérpretes já estavam na sala de espera do aeroporto e o colega da LR, nada. Só havia um intérprete da cabine da LR, o outro não chegava, nem atendia o telefone. Quando o intérprete coordenador perguntou, o intérprete da LR que havia chegado respondeu calmamente que o outro não viria mesmo, mas que ele sozinho daria conta de fazer toda a interpretação para a LR!

Ao ouvir isso, o coordenador da equipe surtou, logicamente, como teria feito qualquer outro intérprete profissional de São Paulo, com bilhete aéreo e voucher de hospedagem na mão. Não contente, o colega da LR presente teria explicado ainda que: “vocês não sabem como as coisas funcionam lá no nosso país”.

De fato, não sabemos. Mas isso não importa. Importa que os colegas das cabines de LRs se profissionalizem, e que entendam que as cabines de interpretação simultânea em São Paulo são exigentes, têm critérios claros, transparentes e rigorosos para avaliar o desempenho da tradução simultânea e que, acima de tudo, prezam muito a imagem e o merecido posicionamento de qualidade incontestável da interpretação simultânea em São Paulo.

Assim, para esses intérpretes de LR e para outras pessoas que buscam formação como intérpretes profissionais, não há melhor escola que São Paulo.

LR:  sigla de Língua Rara.

4 respostas para “Escola de Intérpretes de Línguas Raras”

  1. April 18th, 2013 at 16:31

    ME diz:

    Oi Andréa, ficou muito legal este artigo. Acho que ele demonstra que vc pode ser uma fera na cabine, ter as combinações linguísticas mais disputadas, mas sem um mínimo de ética profissional, a probabilidade de a carreira ir para frente é nula.

  2. April 19th, 2013 at 03:53

    Alfredo Spínola de Mello Neto diz:

    Andréa:
    Conheço e admiro seu trabalho e seu profissionalismo. Como ouvi de uma cliente habitual sua: “A tradução que a Andréa faz fica melhor do que aquilo que eu falei”. A medida de sua competência é seu sucesso na profissão.

  3. April 19th, 2013 at 16:57

    Silvia diz:

    Andrea, acompanho a seriedade e o rigor de seu trabalho e a parabenizo por isto! Fiquei comovida com os detalhes do velório de sua avó, sorte que você logo conseguiu uma boa interprete para substitui-la!

  4. April 20th, 2013 at 20:02

    Alberto A. Sobbrinho diz:

    Andrea, além da assiduidade no trabalho durante tantos anos, o profissionalismo que é ponto alto na sua carreira, ressalto seu afinco sempre se atualizando, qualificando-a cada vez mais nessa desgastante profissão. Parabéns.

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