Feng Guifen e seus ‘intérpretes burros e sem noção’

Por um acaso, topei hoje na Lapham’s Quarterly com um interessante texto chinês, que trata do desejo de apropriação do saber ocidental, numa tentativa de deter o avanço dos ingleses e acaba falando de tradução e interpretação.

Feng Guifen

O autor é Feng Guifen, um dos primeiros pensadores reformistas da China do século 19. O texto em questão foi publicado depois que a influência ocidental se enraizou no país, com o fim da 2a. Guerra do Ópio, em 1860. Sobre as tradições chinesas, o autor afirma: “Quando os métodos são falhos, devemos rejeitá-los embora sua origem seja antiga; quando os métodos são bons, devemos nos aproveitar deles, mesmo se forem os usados pelos bárbaros.”

Tradução, a ferramenta para superar os bárbaros

O trecho começa com uma vênia do autor à superioridade dos livros científicos ocidentais, que conteriam informações  abrangentes e precisas; algo fora do alcance dos intelectuais e governantes chineses de então.

Para resolver o problema, ele sugere:

If we wish to use Western knowledge, we should establish official translation bureaus in Guangzhou and Shanghai. Brilliant students not over fifteen years of age should be selected from those areas to live and study in these schools on double allowances. Westerners should be appointed to teach them the spoken and written languages of the various nations, and famous Chinese teachers should be engaged to teach them classics, history, and other subjects. At the same time they should learn mathematics. (Note: all Western knowledge is derived from mathematics. If we wish to adopt Western knowledge, it is but natural that we should learn mathematics.) China has many brilliant people. There must be some who can learn from the barbarians and surpass them.

Leio este trecho e sinto vontade de dar uns tapinhas nas costas do perspicaz Feng Guifen, que não somente reconhece o valor estratégico de um tradutor hábil, como faz intuir que o trabalho requer grande inteligência, treinamento formal de primeira linha, com professores nativos, de preferência.

Oficiais da Corte

E o que dizer sobre a ideia de birôs oficiais de tradução e estipêndio duplo para os aprendizes de tradução? Feng Guifen, vc sabia das coisas! A única recomendação duvidosa é o ensino da matemática para tradutores, que pelo visto nunca pegou,  nem aqui, nem na China (não pude me furtar ao trocadilho).

O reformista chinês arremata o período com estas proféticas palavras:  “Há muitas pessoas brilhantes na China. Dentre elas há de haver quem consiga aprender com os bárbaros e superá-los.”

Esses intérpretes burros e sem noção

Feng Guifen não gosta de intérpretes.  Tem gente que é assim. Acho mesmo que deve ter um ataque de urticária quando vê um pela frente. Não o condeno, pois não sei qual as gafes que ele viu, nem se foi Tong King-Sing o autor das barbaridades.

Mas o fato é que ele desce a lenha com tanto gosto, que até eu devo concordar.

Se não há escolas de tradutores e intérpretes, se a qualidade da interpretação é insuficiente e coloca em risco a condução dos assuntos do Império Chinês, está certo ele em dizer que os oficiais governamentais devem sacudir a inércia e correr para aprender as línguas ocidentais. Traduttore tradittore, como será que se diz em chinês?

The book is on the table

Vamos ao trecho:

Moreover, during the past twenty years since the opening of trade, a great number of foreign chiefs have learned our written and spoken language, and the best of them can even read our classics and histories. They are generally able to speak on our dynastic regulations and civil administration, on our geography and the condition of our people. On the other hand, our officials from the governors down are completely ignorant of foreign countries. In comparison, should we not feel ashamed? The Chinese officials have to rely upon stupid and preposterous interpreters as their eyes and ears. The mildness or severity of the original statement, its sense of urgency or lack of insistence, may be lost through their tortuous interpretations. Thus frequently a small grudge may develop into a grave hostility. At present the most important political problem of the empire is to control the barbarians, yet the pivotal function is entrusted to such people. No wonder that we understand neither the foreigners nor ourselves and cannot distinguish fact from untruth. Whether in peace negotiations or in deliberating for war, we are unable to grasp the essentials. This is indeed the underlying trouble of our nation.

Moral da história 1. Se hoje vemos na mídia tantos casos de intérpretes salvando seus governantes de vexatórios incidentes diplomáticos, não foi sempre assim, pelo menos na Dinastia Qing.

Moral da história 2. Nem todo mundo que se auto-proclama intérprete tem o talento natural e a formação para desempenhar bem este árduo trabalho, e isso é algo que nós já sabemos desde a Dinastia Qing.

 

uma resposta para “Feng Guifen e seus ‘intérpretes burros e sem noção’”

  1. June 10th, 2013 at 17:10

    Malu Cumo diz:

    Bárbaro! :D adorei.

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