O intérprete simultâneo e o sentido da visão

Intérpretes devem ser ouvidos mas não vistos?

Conhecem o provérbio inglês “Children should be seen and not heard”?

Infelizmente há organizadores de eventos que acreditam que esta máxima se aplica aos intérpretes de conferências, só que ao contrário. Devemos ser ouvidos mas não vistos.

Eu sei que não fazem por mal. Atrás de todo organizador de eventos atarantado tem um cliente à beira da histeria, que pensa que a estética é tudo e que essa caixa preta com duas pessoinhas dentro, simplesmente não faz nada pela beleza da sala.

A foto que apresento abaixo ilustra o desvelo de certos organizadores em ocultar a cabine de tradução simultânea. Da nossa janela envidraçada enxergávamos esses lambris de madeira de demolição e nada mais.

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Minha colega disse que até tentou se esforçar para ver pelas frestas o que acontecia na sala. Eu nem tentei, confesso. Ativei o modo “intérprete em vôo cego” e fui embora.

Intérpretes e visão: uma relação curiosa

As práticas recomendadas não deixam dúvida: ao posicionar a cabine de tradução simultânea, o organizador deve sempre zelar para que o intérprete tenha uma visão desobstruída do palco. O leigo pode se perguntar por quê isso tem tanta importância, considerando que os principais sentidos usados pelo intérprete são a audição e a fala.

Explico então que os olhos dos intérpretes tem uma função primordial: acompanhar o que acontece na sala, a fisionomia dos palestrantes, as expressões da plateia, o entra-e-sai na sala, sem falar nos slides que estão na tela, que nem sempre são disponibilizados para os intérpretes com a devida antecedência.

Sem uma linha de visão, ainda que  torta, não consigo desenvolver o que chamo de “conference room awareness”. Fico à deriva, boiando num caldo de palavras, sem saber muito bem para onde a corrente vai me levar. Falta-me o rapport com a plateia e  o elo visual com uma figura de palestrante.

Trabalhar nessas condições não é impossível. Mas agradável também não é.

Interpretando às cegas: um exemplo extremo

Pra mim, a interpretação remota de teleconferências de resultados financeiros é o exemplo extremo, a situação em que a falta de visão dos palestrantes e de um contexto geral de sala mais atormenta o intérprete. São vários os desafios desse tipo de trabalho: da terminologia financeira às condições de áudio e a tsunami de números batendo, um após o outro, incansavelmente; porém nenhum obstáculo me parece pior do que a ausência de uma figura humana na minha frente.

Luz, sombra e seu efeito sobre a concentração do intérprete

Se a falta de referência visual atrapalha, devo dizer que o meu cérebro tem curiosa intolerância a ambientes fortemente iluminados. Intolerância é um modo suave de falar que me desconcentro e ele praticamente enguiça. Não sei a partir de quantos fótons o desempenho cai, mas fico ansiosa para voltar para a penumbra logo que a luz dos refletores começa a vazar para dentro da cabine de tradução simultânea.

Luz do dia e lâmpadas fluorescentes são as piores para minha concentração. Mais de uma vez, em salas de reuniões, corri para discretamente fechar as persianas e tornar o ambiente mais propício à concentração.

Ainda mais curiosa é a intolerância visual que surge lá pela sexta hora de trabalho em cabine ou 12o palestrante, o que vier primeiro. Mesmo na sala mais bem iluminada do mundo, com o cérebro exausto, tenho a sensação de que a informação visual da sala começa a me atrapalhar.  É a fase do information overload. Tudo e qualquer coisa, até o formato da cadeira prejudica o esforço de me manter focada na mensagem, a minha e a do palestrante.

Nessa hora, em vez de fechar os olhos, como muitos intérpretes fazem, desloco os olhos para a bancada da central de interpretação, e nisso encontro repouso para a mente e novo fôlego para continuar.

Mas que fique claro: esses momentos são breves, e logo volto a apontar os olhos para lá onde minha atenção deve estar: na mesa do painel, no pódio, onde quer que alguém esteja produzindo uma mensagem que precisa de tradução.

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