Profissão Intérprete: Entrevista com Andréa Bianchi

Profissão Intérprete de Conferências

Você já se perguntou como é trabalhar como intérprete de conferências? Quais são os desafios iniciais e como deslanchar na carreira? Como é trabalhar quase todos os dias numa cabine de tradução simultânea? Pensando nos aspirantes à profissão, propomos a a nossos a leitores série de entrevistas Profissão Intérprete.

Nela vamos publicar uma série de entrevistas com intérpretes que conseguiram chegar lá e hoje são profissionais de renome e sucesso. Vamos começar com a nova integrante da Voicelink Tradução Simultânea, a intérprete-coordenadora Andréa Bianchi, que aborda vários tópicos interessantes nesta entrevista, das dificuldades na tradução simultânea entre espanhol e português a passeios de caça Mirage.

Vale a pena conferir!

 

ME: Bom dia Andréa,  os nossos leitores e clientes gostariam de saber um pouquinho mais sobre você, que acaba de entrar para Voicelink, como diretora do departamento de Espanhol. Posso fazer algumas perguntas?

AB: Claro, será um prazer falar da profissão, a interpretação simultânea foi uma das poucas escolhas certas que fiz na vida.

ME: Andréa, qual é a sua formação e seus idiomas de trabalho? Vc sempre quis ser intérprete de conferências ou entrou na profissão por acaso, como muitos de nós?


AB: Meus idiomas de trabalho em cabine são português A, espanhol e inglês B. Tentei várias outras profissões antes, cheguei a estagiar como advogada, mas o trabalho era muito diferente do que eu tinha aprendido na faculdade; fui estudar História, mas eu não queria dar aulas, já estava cansada das aulinhas de inglês, que dei durante boa parte da juventude. Então, fui estudar Economia, mas não conseguia me imaginar trabalhando no governo. Em busca de uma nova alternativa, entrei para o movimento Squat, em Amsterdam e lá, para sobreviver, comecei a fazer tradução escrita. Depois, vi que eu gostava do exercício de traduzir, talvez pela grande semelhança entre teoria e prática. Então, resolvi aprender a traduzir, e ainda estou nesse processo.

ME: Conte um pouquinho sobre o início da sua carreira? Foi difícil para vc começar a trabalhar como intérprete? O que facilitou ou dificultou a sua entrada no mercado?

AB: Lembro do começo da carreira de intérprete como um período de grande empolgação. Eu achava o máximo que alguém nos pagasse por fazer aquele exercício tão prazeroso. Preciso confessar que o começo não foi difícil, sempre senti muito carinho por parte das colegas intérpretes, um verdadeiro acolhimento. E até hoje, é uma grande honra para mim poder chamar de colegas essas pessoas extraordinárias que são as nossas colegas intérpretes de conferências. O que facilitou foi o curso de Tradução e Interpretação da Associação Alumni, que abriu as portas do mercado de trabalho para mim.

ME: Para vc, qual o aspecto mais interessante da profissão de intérpretes de conferência?

AB: Sem nenhuma dúvida, o aspecto mais interessante para mim é estar perto do conhecimento, além da academia, testemunhando a tomada de decisões que estão fazendo a História.

ME: E as dificuldades de trabalhar como intérprete, quais são?

AB: Para mim, os altos e baixos, nessa ordem, porque nos “baixos”, até que dá pra sublimar, fazer outra coisa, cuidar do backlog, mas nos “altos”, não dá pra fazer mais nada, só trabalhar e procurar mais uma desculpa esfarrapada para justificar outra falta, às vezes ao infaltável…

ME: Quais são as áreas que vc mais gosta de interpretar e por quê?

AB: Finanças, política e movimentos sociais, porque são áreas mais próximas dos centros de poder, onde as decisões tomadas causam maior impacto.

ME: O português e o espanhol são línguas parecidas. Isso dificulta ou facilita o trabalho do intérprete? Poderia citar exemplos específicos?

AB: Cada combinação linguística tem as suas dificuldades próprias. Para quem traduz português-espanhol o grande pesadelo é a mistura, especialmente depois de várias horas de cabine. Com o cansaço mental, aumenta muito o risco de misturar. Mas aqui em São Paulo, a tradução para o espanhol tem uma particularidade que atua contra os intérpretes, porque temos frequentemente na mesma plateia, pessoas da Argentina, do Caribe, do México e da Espanha, e temos que traduzir como se todos eles falassem a mesma língua. É como se traduzíssemos para o português, para uma plateia com brasileiros, portugueses, moçambicanos e goenses. Lembro sempre de um caso, o dia de palestras havia terminado e ficamos ali na cabine ainda um pouco, para responder mensagens. Lá na frente, o delegado portenho olha para o barcelonês e diz: “¿Che, por qué no nos sacamos el saco?” Segue-se um silêncio, olhar interrogativo, até que cai a ficha e o barcelonês responde: “Claro. ¿Por qué no nos quitamos la chaqueta?” Para nós, é bom consolo quando “eles mesmos” têm dificuldade para se entender.

ME: Você gosta de trabalho em campo ou prefere trabalhar em cabine? Por quê?

AB: Ah, cada um tem prós e contras, eu adoro a proteção da cabine, é quase um “escritório” para mim, mas também gosto do reconhecimento que proporciona o trabalho sem cabine. O que os olhos não veem… sempre recebemos muito mais elogios quando trabalhamos sem cabine. Acho que aqui também, viva a diversidade!

ME: Qual foi o trabalho mais interessante ou lugar mais inusitado em que vc já trabalhou como intérprete?

AB: Puxa, adoraria contar qual foi o trabalho mais interessante, mas está protegido por NDA. Posso contar o segundo mais interessante? Foi um congresso de pilotos de caças, onde ganhei como prêmio um passeio de Mirage. Quanto ao lugar mais inusitado, acho que foi um acompanhamento de um executivo, durante uma regata, em um veleiro de competição.

uma resposta para “Profissão Intérprete: Entrevista com Andréa Bianchi”

  1. September 4th, 2013 at 08:54

    Profissão Intérprete – Entrevista com Fabiene Rocha :: Voicelink Tradução Simultânea diz:

    […] publicamos mais uma entrevista da série Profissão Intérprete, iniciada com o colóquio com a intérprete-coordenadora da Voicelink Andréa Bianchi. Respondendo às perguntas e dando um panorama geral da carreira de intérprete de conferências, […]

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