Profissão Intérprete: Entrevista com Fabiene Rocha

Profissão Intérprete de Conferências

Hoje publicamos mais uma entrevista da série Profissão Intérprete, iniciada com o colóquio com a intérprete-coordenadora da Voicelink Andréa Bianchi. Respondendo às perguntas de Andréa Bianchi e dando um panorama geral da carreira de intérprete de conferências, temos Fabiene Rocha. Profissional experiente, com mais de 20 anos de carreira em cabines do Brasil e do exterior, especializada em interpretação de finanças, ela é uma das sócias fundadoras da Voicelink Tradução Simultânea.

Pura concentração

Fabiene, como foi o momento em que você decidiu ser intérprete de conferências?

Não sei se decidi ser intérprete, como algo de caso pensado. Tenho certeza que decidi parar de dar aulas de inglês nos idos de 1987 e buscar novos desafios.  Eu lecionava numa escolinha que nos enviava às empresas para dar aulas para executivos. Um dia, pegando meu material, ouvi a conversa de duas colegas professoras como eu. Uma delas desabafava dizendo que queria mudar de profissão, novos desafios. A outra começou a falar do curso de Tradução e Interpretação do Alumni, e de como era difícil de entrar por conta do teste de admissão. Disse até onde era o curso. Eu não tive dúvida:  anotei tudo mentalmente e fui fazer uma visita a este tal Alumni no dia seguinte. Fiz o exame de admissão, fui aprovada, fiz o curso  e mudei minha vida.

Como foi o seu caminho até chegar a traduzir o primeiro evento?

Apaixonei-me pela língua inglesa aos 10 anos de idade e nunca mais parei de estudar.  Quando cheguei ao Alumni para o curso de Tradução e Interpretação, em 1987, havia voltado de um período em Londres havia pouco e meu inglês estava super atualizado. No meio do curso, nasceu minha primeira filha. Eu, ingênua, não quis trancar a matrícula e levava a menina recém-nascida comigo nas aulas de cabine …. foi insano. Desisti depois de uma semana, mas voltei no semestre seguinte e me formei em dezembro de 1989 aos 29 anos.

Como você se sentia no começo da carreira de intérprete?

Sentia-me um pouco insegura no início, falando de assuntos que eu desconhecia por completo, traduzindo palestras técnicas sobre tratamento de lodo, osmose reversa, equipamentos de precisão atômica e por aí vai.  Estudava mais que calouro em véspera de vestibular.   Acho que a curva de aprendizado para os jovens intérpretes é cruel e exige uma enorme dedicação e amor pela profissão.  Mas quem persiste sempre vence e se aprimora.

Qual foi o momento de maior alegria na carreira?

Acho que foi minha primeira viagem ao exterior anos atrás.  Fui para Washington DC, convidada por uma colega querida para fazer a tradução simultânea de uma convenção da ASTD (American Society for Training and Development).  Éramos as intérpretes de uma delegação brasileira e lá tive a honra de traduzir o Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional, que era o best-seller do momento. Acho que foi a melhor tradução que fiz na vida. Ele era absolutamente claro, com raciocínio linear, tudo o que ele falava fazia sentido, foi emocionante e gratificante.  Fomos muito elogiadas ao final.

Houve algum momento em que você quis desistir de ser intérprete?

Claro, um dos momentos mais duros foi justamente a minha primeira cabine como intérprete profissional.  Não me saí muito bem. Pensei seriamente na época que não levava jeito para esta profissão.  Também o assunto era cabeludo demais para uma novata como eu, Gartner Group, que anos depois, por ironia do destino, eu faria com os pés nas costas. Mas alguns meses depois, minha carreira voltou a avançar e devo dizer que a sorte deu um empurrãozinho. Durante uma visita a Londres, fui apresentada a um grupo de repórteres da BBC que estava vindo ao Brasil para entrevistar políticos em São Paulo.  Fui contratada lá mesmo e o trabalho correu muito bem.  Acho que isso mostra que um pouco de sorte faz toda a diferença para quem está começando.

Seus filhos já são grandes, 17 e 25 anos. O que eles sentem em relação ao seu trabalho?

Acho que o profissional autônomo passa para os filhos a ideia de que o trabalho é maravilhoso. Quando tem trabalho comemoramos, e lamentamos quando a semana está vazia.  Lembro-me bem deles pequenos, pulando no meio da sala porque “a mamãe teria uma semana inteira de trabalho”, coisa rara na profissão.  Até porque o desgaste é imenso.  O que comentam agora, já praticamente adultos, é que me consideram bem sucedida profissionalmente numa profissão de que gosto bastante, e que desejam encontrar a mesma realização em suas vidas.

Quem é a pessoa que você considera a mais importante, entre tantas personalidades famosas que você já traduziu? Por quê?

Não acho que seja capaz de apontar uma personalidade famosa, mas destacaria uma área que traduzo há anos e que me auxiliou enormemente, principalmente na criação dos filhos e na resolução de conflitos: a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC).  Para quem trabalha como intérprete, o aprendizado é inevitável, os insights acontecem durante a tradução, é um processo cerebral triplo. Apesar da imensa concentração a assimilação acontece, em níveis profundos.  Sou muito grata ao Instituto de Terapia Cognitiva por ter me adotado como sua principal intérprete nos últimos 10 anos. Adoro trabalhar com eles!

O que um intérprete de conferências precisa fazer para alcançar e manter o sucesso que você tem?

Eu me sinto estabelecida e reconhecida no meio. Sou séria como profissional, gosto de estudar e aprender, gosto do convívio com as colegas e tento ser flexível no social mas sigo uma conduta ética rígida, algo que considero indispensável em qualquer profissão.

Fabiene, dizem que você já fez de tudo em tradução simultânea. É verdade? O que ainda falta fazer como intérprete de conferências?

Sabe que nunca pensei nisto antes? Já traduzi dentro e fora da cabine, em hotéis, auditórios, empresas, estábulos, no meio da lavoura em Indiana e Ohio;  traduzi palestrantes que falavam inglês e palestrantes que tinham certeza de que falavam inglês, já tive acessos de riso dentro da cabine, já me perguntei milhares de vezes o que eu fazia ali – quando depois de duas frases eu só conseguia entender uma palavra.  Já viajei dentro e fora do Brasil, fiz road shows com investidores apressados, entrei em prisões, matadouros e outros locais inusitados. Já peguei carona de motoboy para não chegar atrasada ao evento (greve de ônibus em SP). Acho que o que ainda falta é termos mais estabilidade nesta profissão, que acompanha de perto o ritmo econômico do país.  Se o país vai bem, temos muito trabalho, se tropeça, ficamos dias em casa. Mas até esta tolerância e jogo de cintura fazem parte do portfolio de habilidades que a interpretação simultânea exige de nós.  Nunca um dia igual ao outro.

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