Um show de tradução consecutiva

Já viu intérprete dar um show de tradução consecutiva? Assista ao pronunciamento da ativista uigur Rebiya Kadeer no Oslo Freedom Forum.  A tradução consecutiva é feita do uigur para o inglês por um intérprete não identificado, mas absolutamente brilhante na minha opinião.

Por que admiro tanto o trabalho deste intérprete?  Como não falo uigur, meus comentários se baseiam apenas no delivery do intérprete, ou seja a maneira como ele apresenta a tradução oralmente.

Ele consegue passar uma segurança incrível para os ouvintes, sem nenhum titubeio, aqueles ahhs e uhhhs que são tão difíceis de evitar mesmo quando estamos fazendo uma apresentação na nossa própria língua.

A postura do intérprete também é impecável. Ele está de pé no palco, ao lado da palestrante e provavelmente diante de milhares de olhos curiosos na platéia. Ao longo de toda a sessão, mantém a seriedade, sem gesticular ou remexer o corpo, mas também aparenta estar totalmente à vontade, não passa o menor traço de nervosismo.

Outras qualidades admiráveis: o intérprete não toma notas, apenas ouve com extrema atenção e confia em sua memória, que certamente deve ser prodigiosa, como a dos lendários intérpretes de Nuremberg.  Ele fala em frases completas, redondinhas e elegantes, num tom que não é monótono, pelo contrário, colocando ênfase onde necessário.

Mostrei o vídeo a várias colegas intérpretes e quase todas concordam que o intérprete foi muito bem ensaiado, teve acesso ao texto do discurso antes e deve ter traduzido e memorizado boa parte dele.

Mas será mesmo? Geralmente, quando o palestrante faz um discurso preparado em lugar de falar de improviso, ele leva suas notas consigo no pódio, e neste caso a oradora está sem notas. O discurso preparado só é lido a partir do minuto 8:51 pelo intérprete, que aliás se autodenomina spokesperson (porta-voz) nessa hora.

Outras amigas se surpreenderam que numa conferência de tal porte os organizadores tenham escolhido a consecutiva e não a simultânea para várias das apresentações. Mas isso pode ter sido uma escolha política, acima de tudo, como ressaltou uma das minhas colegas.

A consecutiva é uma modalidade que não “apaga” ou “se sobrepõe” à língua original, e portanto coloca em evidência a identidade cultural do palestrante. Considerando a luta da ativista pelos direitos do povo uigur, seria impensável que ela se expressasse na língua do dominador ou em qualquer outra que não sua língua nativa.

Para concluir este longo post, se vc sabe mais sobre o intérprete/spokesperson, deixe abaixo o seu comentário. Eu por enquanto deixo apenas uma salva de palmas para este profissional desconhecido.

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