Velocidade: a arquiinimiga dos intérpretes

Adorei esta metáfora: “O cérebro humano é como uma máquina de lavar roupas. O tambor nunca deve ficar cheio demais ou não haverá espaço para centrifugar e as roupas não ficarão bem limpas. Da mesma forma, um discurso rápido demais sobrecarrega o cérebro com informações que devem ser processadas num intervalo de tempo específico, o que não deixa espaço para o processamento adequado e a produção de uma tradução coerente”.

Encontrei-a neste interessante artigo do professor de interpretação chinês Li Changshuan, que discute as estratégias de interpretação que podem ser usadas quando o palestrante fala rápido demais.

Acho que o artigo deveria ser leitura obrigatória para os conferencistas que vão se apresentar em um evento com tradução simultânea, assim como as dicas para palestrantes que aparecem nas perguntas comuns aqui no site.

Noto com satisfação que o autor conhece perfeitamente as dificuldades dos intérpretes: os discursos abstratos e coesos que são lidos em voz alta devem sempre ser enunciados a um ritmo bem mais lento do que o da fala normal. Estou totalmente de acordo. Densidade pede uma cadência lenta, para que o ouvinte possa apreciar todas as nuances.

Constato alarmada, no entanto, que as estratégias sugeridas pelo autor para lidar com uma torrente de palavras velozes são limitadas. Apenas quatro, sendo que uma delas constrangedora e a outra quase escandalosa.

O autor afirma que o intérprete que se depara com um palestrante falando rápido tem quatro opções: pedir para o palestrante diminuir o ritmo, acelerar junto, resumir a mensagem, e atenção: desligar o seu próprio microfone.

É consenso entre os intérpretes que pedir para o palestrante falar mais devagar adianta muito pouco. A tendência natural é voltar ao ritmo cotidiano de fala, e se calhar, o palestrante fala rápido mesmo, vai maneirar por uma ou duas frases e engrenar a quarta e logo a quinta marcha outra vez.  Ou seja, muito constrangimento para pouco efeito.

A segunda opção me parece bem mais viável.  Ele acelera, você vai junto. Mas existe um limite que,  se ultrapassado, faz  sofrer a platéia. Prova disso: você acha locução de futebol uma coisa relaxante de ouvir? Vai trocar o seu Brahms por uma coletânea de momentos mais rápidos do Sílvio Luís? Ah, sem falar que nesse caso em vez de 90 minutos podem ser 6 horas de Sílvio Luís  falando de assuntos complexos como informática, seguros, legislação ambiental.  Cansa o ouvinte.

E a terceira? Resumir é coisa para quem tem sangue frio e conhecimento do assunto que está sendo discutido. Diria que resumir é tão arriscado quanto tentar enfiar um elefante num dedal. A tromba pode ficar de fora. Muito desagradável para o elefante.

Bem chegamos agora à quarta. Já ouvi lendas mas nunca vi um intérprete abandonar intempestivamente a cabine de tradução simultânea porque o palestrante está “correndo”, como costumamos dizer.  Acho um exagero e uma falta de respeito com quem mais importa: o ouvinte.

Ou seja, após esta revisão tática concluo que mais do que em outras profissões, o intérprete conta com a sua lábia, experiência prática e uma boa dose de sorte para se sair bem no trabalho.

Pelo menos enquanto não inventarem o tal sensor de palavras por minuto com bipe e luzinha que acende quando falta a colaboração do palestrante. 



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